A violência letal contra mulheres costuma ser antecedida por ameaças, agressões, violência psicológica, isolamento social e tentativas frustradas de buscar ajuda. No Brasil, foram registrados 1.548 feminicídios em 2025, além de 3.821 tentativas. O cenário mostra a necessidade de identificar os sinais anteriores e ampliar a proteção antes que a violência chegue ao extremo.
A violência de gênero pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial ou econômica, moral e simbólica, conforme as modalidades previstas na Lei 11.340/2006. O feminicídio aparece como a forma mais extrema de desigualdades que atravessam a vida das mulheres brasileiras.
Desigualdades e relações íntimas
Entre as vítimas de feminicídio registradas entre 2021 e 2024, 62,6% eram mulheres negras e 36,8% eram mulheres brancas. Mulheres indígenas e amarelas representaram 0,3% dos registros em cada grupo. Os dados indicam a articulação entre gênero, raça e desigualdades socioeconômicas na produção de vulnerabilidades.
A maior parte dos casos ocorre no contexto de relações íntimas. Companheiros ou ex-companheiros aparecem como autores em grande parte dos crimes. Assim, ambientes associados ao cuidado e à proteção também podem se tornar locais de risco, o que reforça a importância de observar o processo que antecede a morte, e não apenas o ato final.
No Distrito Federal, uma pesquisa divulgada em 2026 apontou que 77% das mulheres já sofreram algum tipo de violência praticada pelo parceiro íntimo. Do total, 44% relataram violência psicológica, 24% violência física e 18% violência sexual.
Ainda no DF, 28 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. A taxa foi de 1,8 feminicídio por 100 mil mulheres, acima da média nacional. O Distrito Federal também registra mais de 23 mil ocorrências anuais de violência contra mulheres, cerca de 60 casos por dia. Aproximadamente 30% envolvem agressões físicas, e menos de um terço das mulheres formaliza denúncia.
Uma resposta construída nos territórios
Nesse contexto, a Fiocruz Brasília mantém o Colaboratório Com Elas – Pelo fim do feminicídio no Distrito Federal. A iniciativa começou em 2024, a partir da mobilização de movimentos sociais ligados à defesa da vida das mulheres no DF.
Foram realizadas quatro oficinas participativas, com 75 movimentos sociais parceiros, além de representantes da gestão pública, profissionais de serviços, lideranças comunitárias e instituições voltadas à promoção dos direitos das mulheres. O processo definiu prioridades, estratégias e alianças para a atuação do Colaboratório.
A iniciativa é organizada em três eixos: o Grupo de Trabalho da Pesquisa, o Grupo de Processos Formativos e o Grupo do Núcleo de Ações Territoriais. As coordenações são compartilhadas por pesquisadoras e pesquisadores da Fiocruz Brasília e representantes dos movimentos sociais.
O Grupo de Trabalho da Pesquisa atua com a perspectiva da pesquisa-ação, principalmente em territórios marcados por vulnerabilidades socioeconômicas. Entre seus objetivos estão fortalecer redes comunitárias de prevenção ao feminicídio, ampliar o acesso de mulheres e meninas aos serviços públicos e elaborar diagnósticos territorializados para apoiar políticas públicas.
O Grupo de Processos Formativos promove a troca de conhecimentos entre movimentos sociais, lideranças populares, profissionais da saúde e da assistência social e representantes da sociedade civil. Também forma agentes populares promotores dos direitos das mulheres, qualifica profissionais e desenvolve atividades com homens sobre masculinidades e responsabilização.
Já o Grupo do Núcleo de Ações Territoriais atua prioritariamente na Cidade Estrutural, incluindo o território de Santa Luzia. O eixo conta com seis representantes dos movimentos sociais e seis bolsistas territoriais, que desenvolvem ações diretamente na comunidade, fortalecendo vínculos e a mobilização local.
A experiência do Colaboratório Com Elas sustenta que a prevenção ao feminicídio depende da articulação entre movimentos sociais, instituições públicas e redes comunitárias. Para as autoras Julliane Messias Cordeiro Sampaio e Odete Messa Torres, a proteção exige presença nos territórios, formação, acolhimento e participação social permanente.








