A organização territorial de mulheres evangélicas conservadoras pode alcançar e mobilizar mais pessoas do que perfis com milhões de seguidores nas redes sociais, aponta a pesquisa “Mulheres evangélicas conservadoras nas eleições”, do Lab-CRE (Laboratório Cristãos nas Redes), da Casa Galileia.
O estudo mapeou 60 candidaturas de mulheres conservadoras e identificou uma trajetória de formação política que tem como marco o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Em 2018, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Damares Alves (Republicanos-DF) assumiu o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Para o relatório, o período representou “uma reorganização do campo político com ampliação da participação de atores religiosos e conservadores”.
Redes de confiança e formação de lideranças
A pesquisa usa o termo “damarismo” para descrever o aprofundamento da mobilização e da formação de lideranças associadas à senadora Damares Alves. Atualmente, ela e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro são apontadas como referências da estrutura de mobilização dessas mulheres.
A antropóloga e pesquisadora da Casa Galileia Lorena Mochel afirma que o objetivo foi compreender como a profissionalização partidária ocorre a partir das influências presentes nos territórios e das referências construídas com lideranças espirituais. Para ela, os partidos não criaram essas lideranças do zero: aproveitaram redes que já existiam nas comunidades religiosas.
Essas conexões são formadas em grupos de mulheres, eventos, atividades de discipulado, ensino bíblico e intercessão. Segundo Mochel, a organização dessas práticas por gênero contribui para a formação de novas lideranças e para a participação conjunta na política.
As mulheres também promovem chás, encontros, conferências e congressos. Nesses espaços, a articulação religiosa passa a se relacionar com a política partidária.
Pautas e referências políticas
Embora o fenômeno ocorra há quase dez anos, ele passou a chamar mais atenção recentemente. Um dos pontos citados pela pesquisadora foi um vídeo de Michelle Bolsonaro. O relatório relaciona a mobilização atual a uma relação de amadrinhamento político-pastoral entre Damares Alves e Michelle, além do movimento “Mulheres Conservadoras”, lançado pelas duas em 2024.
Entre os temas discutidos nos encontros está a defesa da vida. Na perspectiva apresentada pela pesquisa, a pauta é associada à oposição ao aborto e à imagem de uma “mulher de bem”. O estudo também questiona o significado dessa definição e como ela orienta a atuação política dessas mulheres.







