Durante a Expointer, a ministra Fernanda Machiaveli recebeu do prefeito de São Lourenço do Sul, Zelmute Marten (PT), um exemplar de Noivas de Preto, do escritor Jairo Scholl Costa. A entrega ocorreu diante do estande do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e contou com a presença da vice-prefeita Fernanda Bork (PT).
O romance histórico é inspirado em uma narrativa oral trazida ao Brasil por imigrantes pomeranos. A obra relaciona o costume de mulheres se casarem de preto à experiência de comunidades submetidas ao poder feudal na antiga Pomerânia. Nessa memória, a roupa teria expressado luto, protesto e resistência diante das imposições dos senhores, incluindo o controverso jus primae noctis, o suposto “direito da primeira noite”.
A origem dessa tradição não é apresentada como um fato histórico definitivamente comprovado. Ela está no encontro entre história, literatura e memória coletiva. Os últimos casamentos de noivas vestidas de preto teriam ocorrido na região de São Lourenço do Sul no final da década de 1940. Assim, a prática teria atravessado gerações e permanecido no Sul do Brasil mesmo depois do desaparecimento da ordem social à qual sua origem era atribuída.
Memória e formação política
A presença do feudalismo no romance também se aproxima de uma antiga discussão sobre a formação brasileira. Nelson Werneck Sodré identificou relações feudais ou semifeudais no mundo rural. Caio Prado Júnior rejeitou a ideia de que a colonização tivesse reproduzido o feudalismo europeu, enquanto Jacob Gorender definiu a sociedade colonial como um modo de produção específico, o escravismo colonial.
Raymundo Faoro, em Os donos do poder, analisou o patrimonialismo e a apropriação da máquina pública por um estamento. Oliveira Vianna examinou, em Instituições Políticas Brasileiras, a influência da grande propriedade, das famílias senhoriais e dos clãs nas relações de dependência e obediência. Já Florestan Fernandes, em A Revolução Burguesa no Brasil, mostrou como a modernização capitalista poderia incorporar estruturas antigas. José Murilo de Carvalho, em A construção da ordem, estudou a formação da elite política imperial e sua atuação no Estado.
A tradição das noivas pomeranas acrescenta a esse debate uma memória construída fora dos documentos oficiais. O vestido pode reunir luto, obediência, pertencimento e protesto. Também coloca as mulheres, especialmente as trabalhadoras rurais, no centro da interpretação sobre poder, cultura e resistência.
A entrega do livro no estande do ministério aproximou a memória local do Estado nacional. No território da agricultura familiar, trabalho, imigração, relações familiares e identidade comunitária aparecem ligados. O romance não propõe uma teoria sobre a formação política brasileira, mas oferece uma imagem para refletir sobre a permanência de formas de dominação depois do desaparecimento das instituições que as criaram.







