SÃO PAULO — Moradores do Jardim Pantanal e de bairros vizinhos começaram a perceber a redução do nível da água nesta quinta-feira (17), depois de cinco dias seguidos de enchentes na várzea do rio Tietê. As seis comportas da Barragem da Penha foram abertas por volta das 15h de quarta-feira (16), segundo o vereador Alessandro Guedes (PT), ex-presidente da CPI do Pantanal.
A proximidade entre a abertura da estrutura e a baixa da água levou Guedes a pedir uma auditoria externa e independente. O objetivo é verificar se a operação da barragem pode ter alguma influência nas inundações do extremo leste de São Paulo.
Pedido de investigação
O vereador afirma que acompanhou uma situação semelhante durante a grande enchente de fevereiro de 2025, quando cobrou a abertura das comportas ao lado do deputado estadual Enio Tatto (PT). Desta vez, Guedes não atribui diretamente a redução da água à manobra, mas considera que a repetição dos acontecimentos precisa ser analisada.
“Isso não significa que eu esteja apresentando uma conclusão técnica pronta. Significa que existe uma questão objetiva que precisa ser esclarecida”, declarou.
A bancada do PT na Câmara Municipal encaminhou uma representação ao Ministério Público de São Paulo. O pedido inclui acesso aos registros das manobras, aos dados de telemetria e uma análise dos possíveis efeitos a montante. Até a manhã desta quinta-feira (17), não havia informação pública sobre a abertura de uma investigação específica pelo MP-SP.
A CPI do Pantanal terminou sem uma conclusão técnica definitiva sobre a influência da barragem. O relatório final reuniu avaliações divergentes: documentos e manifestações técnicas indicaram que a estrutura não teria influência determinante sobre o Jardim Pantanal, enquanto outros relatos mantiveram aberta a hipótese de interferência, ao menos em determinados cenários, sobre as águas a montante. A comissão defendeu o aprofundamento do tema pelos órgãos competentes.
Relatos durante a enchente
Moradores também associaram a operação da barragem à velocidade de escoamento da água. Na Vila Seabra, Clarice Ferreira relatou que acompanhou a situação da estrutura enquanto as casas permaneciam inundadas.
“Quando foi mais tarde, abriram duas, a água da rua começou a baixar. Só que eles foram e fecharam novamente”, contou. Segundo ela, depois disso o nível voltou a subir.
Emerson Maquiné, morador da União de Vila Nova e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), já questionava a demora no escoamento desde o começo da inundação. A água permaneceu dentro de bairros como Jardim Pantanal, Jardim Helena, Vila Seabra, Vila Itaim e União de Vila Nova.
Na Vila Seabra, moradores relataram água entre 80 centímetros e 1 metro dentro de algumas casas. Marinalva da Silva Menezes deixou a residência após perder móveis e eletrodomésticos. Vizinhos também organizaram um barco por conta própria para levar marmitas a famílias que não conseguiam sair.
Posição da SP Águas
A SP Águas negou que a operação das comportas da Barragem da Penha interfira nas condições de escoamento do Jardim Pantanal. A agência afirmou que o bairro fica em cotas altimétricas entre 728 e 729 metros acima do nível do mar, acima da cota máxima do remanso associado à barragem, que varia entre 723 e 724 metros.
Segundo a SP Águas, a operação das estruturas hidráulicas considera critérios técnicos e o acompanhamento permanente dos níveis e das vazões do rio. A agência também informou que o Jardim Pantanal está em uma área de várzea do Alto Tietê, formada por terrenos naturalmente baixos e ligados à dinâmica do rio.
A SP Águas declarou ainda que alagamentos na região não significam que a água esteja sendo represada pela operação da barragem. O Governo do Estado mantém intervenções para melhorar o escoamento do Tietê. No Jardim Pantanal, foram removidos 371,9 mil m³ de sedimentos, com investimento de R$ 55,8 milhões. Também está em andamento o desassoreamento de aproximadamente 11,7 km da calha do Rio Tietê, entre a Barragem da Penha e o Córrego Três Pontes.








