SÃO PAULO — O restaurante Preta Maria, criado pela chef Bela Gil, transforma a memória de Preta Gil em uma experiência que combina arquitetura, decoração e gastronomia. A casa investiga as relações entre África, diáspora e Brasil e foi concebida como um espaço de encontro, troca e partilha.
No salão, uma trama de bambu percorre o teto em um movimento contínuo. O desenho traduz a ideia de circularidade associada às culturas africanas e integra o projeto do Estúdio Guto Requena, desenvolvido com colaboração de Gabriela de Matos e Mateus Fraga. A proposta usa a colagem para reunir formas, materiais e referências em uma arquitetura afrocentrada.
Círculos, triângulos e retângulos aparecem em espelhos, mesas e elementos do bar. Essas formas fazem referência às pesquisas visuais dos artistas negros brasileiros Rubem Valentim e Abdias Nascimento. Bambu, pedra e taipa são combinados com impressão 3D e desenho paramétrico, aproximando elementos ancestrais de recursos contemporâneos.
Uma homenagem à irmã
Preta Gil (1974–2025), irmã de Bela, inspirou o projeto de maneira afetiva. A cantora era associada pela chef ao dourado, ao luxo e a uma estética exuberante. “Tem uma mistura muito grande desse mundo da Preta, luxuoso, supervaidosa, filha de Oxum, adora dourado, ouro e essa luz, né? Que irradia, reluz”, conta Bela.
A ideia de criar uma casa dedicada à cultura afro-diaspórica fez Bela pensar imediatamente na irmã. As duas compartilhavam, segundo a chef, “o poder de disrupção” e a disposição para estimular aventura e experimentação. Bela contou a Preta sobre o projeto enquanto ela estava no hospital; a cantora sorriu e se emocionou, conforme a lembrança da chef.
Na cozinha, o cardápio autoral apresenta pratos como mafé de vegetais, arroz de alho e sega wat, ensopado de carne picante típico da Etiópia. A proposta é colocar a comida no centro da mesa e fazer dela um ponto de encontro entre conversas, saberes e sabores.
Bela também quer ampliar o repertório sobre a presença africana na cultura brasileira, aproximando os clientes de ingredientes, receitas, músicas e referências que muitas vezes são reconhecidos como brasileiros sem que sua origem africana seja lembrada. Assim, o restaurante articula a homenagem a Preta Gil com a intenção de provocar curiosidade e fazer circular novas histórias.







