PORTO ALEGRE — A saúde mental foi o impacto pessoal mais citado por famílias atingidas pelas enchentes de 2024, segundo pesquisa do IBGE. Nas áreas pesquisadas, 67,5% dos moradores disseram que tiveram a saúde mental abalada. O dado ajuda a dimensionar consequências que podem continuar depois da reconstrução de casas e da retomada da rotina.
A proposta de incluir esse cuidado desde o planejamento das emergências climáticas está no Projeto de Lei 6151/2025, apresentado pelos deputados Pompeo de Mattos (PDT) e Fernanda Melchionna (PSOL). O texto aguarda análise da Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional, na Câmara dos Deputados, e prevê atenção psicossocial antes, durante e depois de eventos extremos.
A iniciativa é ligada à campanha Saúde Mental Climática, articulada por Luciana Brafman, fundadora da Time To Act. Advogada, produtora, diretora e ativista climática, ela também atua como consultora da ONU em políticas públicas de clima, sustentabilidade e bem-estar das comunidades. Para Luciana, a recuperação costuma priorizar moradias, estradas e equipamentos públicos, enquanto o sofrimento emocional pode receber menos atenção.
Quando o desastre continua presente
A psicóloga Sheila Cardoso, que acompanhou pessoas afetadas pelas enchentes, abrigos coletivos e voluntários da reconstrução, relata sintomas como medo de novas chuvas, problemas para dormir, ansiedade, sensação de impotência e pânico. Esses sinais podem aparecer como sintomas pós-traumáticos e atingir diferentes grupos envolvidos no desastre.
Mariane Friedrich, de 36 anos, vivia no bairro Sarandi, em Porto Alegre, quando as águas atingiram o Rio Grande do Sul. Ela ficou fora de casa por quase 60 dias, perdeu pertences e precisou lidar com a possibilidade de deixar a moradia durante a reconstrução. Já fazia tratamento para ansiedade e depressão, mas as crises se intensificaram. Durante as chuvas, ficou sem acompanhamento psicológico; depois, encontrou dificuldades para retomar o atendimento porque o posto de saúde havia sido afetado e a unidade próxima de sua nova casa estava sem médico.
A mudança também alcançou a vizinhança. Segundo Mariane, moradores que já enfrentavam ansiedade e depressão perceberam piora no quadro. A experiência mostra como uma catástrofe pode alterar a sensação de segurança, os vínculos e a maneira como a comunidade se relaciona com o território.
O chamado Trauma Coletivo Climático descreve justamente efeitos emocionais, psicológicos, sociais e comunitários vividos por uma população diante de uma ameaça ou desastre compartilhado. Enchentes podem deslocar famílias, interromper atividades econômicas e a rotina escolar. Secas prolongadas podem comprometer o trabalho e a renda de agricultores; queimadas podem provocar perdas e medo recorrente; deslizamentos podem retirar pessoas de seus territórios; e ondas de calor podem afetar de forma desigual grupos vulneráveis.
O que prevê a proposta
O Ministério da Saúde reconhece que eventos climáticos extremos podem gerar sofrimento psicológico e impactos psicossociais duradouros. O projeto em tramitação propõe articular saúde, assistência social, educação e defesa civil, com atendimento multiprofissional e medidas voltadas às necessidades individuais e comunitárias.
A política alcançaria familiares, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, profissionais que atuam nas emergências e comunidades expostas a riscos climáticos. Também estão previstas a preparação de equipes, a identificação de populações vulneráveis, a criação de protocolos e o acompanhamento durante a reconstrução.
O texto ainda propõe um Sistema Nacional de Saúde Mental Climática, para integrar serviços, produzir dados e coordenar ações, além de Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades. A mobilização defende que o apoio psicológico faça parte de todo o ciclo do desastre, e não apenas da resposta imediata após a ocorrência.








