No Dia do Cerrado, celebrado nesta sexta-feira (11), os efeitos das mudanças climáticas sobre o bioma ganham atenção com a previsão de um novo episódio de El Niño. Segundo Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno pode intensificar a seca, aumentar o risco de incêndios e pressionar a disponibilidade de água no Cerrado e no Distrito Federal.
O aquecimento já vem sendo acompanhado por alterações no regime de chuvas. A entrada do período chuvoso está mais atrasada, e as precipitações se tornaram mais irregulares. A pesquisadora também afirma que os incêndios estão mais frequentes e intensos.
“O Cerrado já enfrenta impactos severos e generalizados das mudanças climáticas”, afirmou Bustamante. De acordo com a bióloga, as projeções indicam que o aumento da temperatura deve continuar até o final do século.
O fogo é agravado pela combinação entre secas mais fortes e avanço do desmatamento. Esse cenário pode afetar a capacidade do Cerrado de absorver carbono. O bioma, que funciona como um sumidouro de carbono, corre o risco de passar a emitir mais carbono do que consegue absorver.
Água e preservação
Membro da Academia Brasileira de Ciências, Bustamante defende que o Cerrado seja valorizado não apenas por sua biodiversidade, mas também por sua relação com a segurança hídrica, o equilíbrio climático e as condições de vida da população brasileira. “Proteger este bioma é uma questão de sobrevivência, e não uma opção”, disse.
Conhecido como “berço das águas”, o Cerrado abriga nascentes de oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país. A pesquisadora relaciona a redução da vazão dos rios ao desmatamento e às mudanças climáticas. Segundo ela, o desmatamento responde por 56% da retração do nível de água, enquanto a mudança do clima é responsável por 44% da vazão menor. O El Niño pode intensificar a seca e reduzir ainda mais a recarga dos aquíferos.
As previsões científicas apontam para a formação de um super El Niño este ano. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e pode alterar padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta. No Cerrado e no Distrito Federal, a combinação de calor, chuvas menores e irregulares pode ampliar o risco de incêndios e exigir acompanhamento da água disponível para o abastecimento da população.
Entre as medidas defendidas por Bustamante estão o combate ao desmatamento ilegal, a redução do desmatamento ainda autorizado pelo Código Florestal, a recuperação de áreas degradadas e o incentivo a práticas agrícolas menos vulneráveis às mudanças climáticas. A região do Matopiba, formada por áreas de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, deve ter o planejamento territorial revisto, com avaliação dos impactos da ocupação sobre os recursos hídricos. A proteção dos territórios de povos indígenas e comunidades locais e tradicionais também integra a estratégia de preservação.








