Juiz de Fora, Sábado, 3 de outubro de 2026
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Escassez de sururu muda rotina e ameaça renda de pescadores no Recife

Pescadores relatam marisco menor e mais raro, enquanto pesquisadores citam poluição, assoreamento, mudanças climáticas e sobrepesca.

Escassez de sururu muda rotina e ameaça renda de pescadores no Recife

A pesca do sururu perdeu espaço nos estuários do Recife. Na Ilha de Deus, pescadores já não encontram o marisco como antes e precisam percorrer áreas mais distantes, como os arredores da escultura de Brennand, a ponte do Limoeiro e pontos de Olinda. A redução afeta a renda de famílias que dependem da maré e também aumenta o tempo de trabalho.

Cíntia Alves, 49 anos, criou sozinha os dois filhos com o dinheiro obtido na pesca. Ela afirma que, atualmente, não consegue mais viver da atividade na Ilha de Deus. Juliana Maria dos Santos, 45 anos, moradora da Comunidade do Bode, no Pina, conta que passou a procurar o sururu por duas ou três horas antes de mergulhar. Em uma ida à maré no final de julho, conseguiu dois quilos do marisco.

O rendimento também caiu. Quando o sururu está magro, uma galé cheia produz cerca de três quilos de massa limpa. Desse total, R$ 30 ficam com quem faz a catação, enquanto o quilo é vendido por valores entre R$ 25 e R$ 30.

Poluição e mudanças no estuário

Em Brasília Teimosa, a marisqueira Edileuza Silva do Nascimento, conhecida como Leu, de 72 anos, relaciona a queda à presença de garrafas PET, vidro e outros resíduos no rio Capibaribe. O lixo se mistura ao marisco e torna o beneficiamento mais demorado e arriscado, com possibilidade de contato com agulhas, embalagens e materiais de construção.

Pesquisadores e comunidades apontam diferentes fatores para a escassez. Entre os mais citados estão a falta de saneamento, o despejo de resíduos, o assoreamento dos rios, a alteração no regime de chuvas e o aquecimento dos oceanos. Também são mencionadas a retirada de mariscos pequenos demais e a possibilidade de uma espécie invasora competir com o sururu nativo.

A oceanógrafa Mônica Costa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que várias causas agem ao mesmo tempo na bacia do Pina. Para ela, a deposição de sedimentos é uma das mudanças importantes no estuário, mas dragagens isoladas não resolvem a situação, porque o problema alcança toda a bacia do rio Capibaribe.

O biólogo Gilberto Rodrigues, professor da UFPE, explica que o sururu depende do equilíbrio entre os períodos dentro e fora da água. Alterações nas chuvas e no assoreamento podem deixar o marisco tempo demais em uma dessas condições, prejudicando sua alimentação, seu crescimento e sua sobrevivência. Segundo ele, isso ajuda a explicar por que os pescadores já não encontram exemplares tão grandes.

Mônica Costa também avalia que o aumento da temperatura da água pode reduzir a capacidade de sobrevivência das espécies. Ela defende medidas sociais e econômicas para proteger as famílias pesqueiras durante os períodos de baixa produção.

Pesquisa acompanha pesca artesanal

Nenhum órgão público registra o volume de sururu retirado dos estuários do Recife. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem publicação, e o painel criado pelo Ministério da Pesca em 2025 não contabiliza mariscos coletados em rios urbanos.

A Rede Maris, projeto financiado pelo CNPq e realizado com a participação de universidades do Nordeste, investiga a produção de mariscos na região. A pesquisa de campo na Ilha de Deus teve a participação da pescadora e estudante de biologia Ana Mirtes Ferreira.

O acompanhamento ocorreu de agosto de 2025 a julho deste ano. Segundo Mirtes, os pescadores passaram a levar mais tempo para obter a mesma quantidade de marisco e relatam que, em alguns locais, encontram mais lixo do que sururu. O estudo também registrou a preocupação de que os conhecimentos tradicionais não sejam transmitidos aos filhos, por causa da insegurança, da baixa valorização do produto e dos acidentes durante a atividade. A pesquisa completa deve ser publicada no começo do próximo ano.

Falta de pausa para a reprodução

A sobrepesca é outro ponto citado por pescadores e pesquisadores. Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, diz que mais pessoas passaram a ir à maré sem conhecer os períodos adequados para retirar o sururu. Edvalda Ramalho, a Valma, que preside a Colônia de Pescadores Z-20, afirma que retirar exemplares abaixo do tamanho ideal pode comprometer a reprodução e ampliar o impacto ambiental.

Entre os pescadores mais antigos, era comum alternar as áreas de coleta para permitir a recuperação do marisco. Essa prática vem se perdendo. O problema é agravado pela necessidade de renda: mesmo no período chuvoso, quando a reprodução aumenta, muitos não conseguem interromper o trabalho.

As colônias defendem a criação de um defeso, com pagamento durante a interrupção da pesca. Para a pesca artesanal, existe o Chapéu de Palha, programa estadual que também atende marisqueiros. O benefício pode chegar a R$ 387,94, em até cinco parcelas. Para quem recebe Bolsa Família, o valor é de R$ 150.

Em 2026, o programa beneficiou 6.032 pessoas em 58 municípios, incluindo 600 no Recife, com investimento de aproximadamente R$ 6,4 milhões. O pagamento ocorre de maio a agosto. Para ter acesso, é necessário comprovar a atividade com o Registro Geral da Pesca e não receber aposentadoria, pensão do INSS, seguro-desemprego ou seguro-defeso.

Riscos à saúde

O contato com lama poluída e resíduos deixa as marisqueiras expostas a ferimentos e infecções. Edilene Maria Alves da Silva, 58 anos, relata que precisou se afastar por duas semanas após desenvolver uma doença dermatológica que associou ao trabalho de separação do marisco.

A biomédica e sanitarista Alyne Nascimento defende soluções coletivas para enfrentar a poluição, em vez de concentrar a responsabilidade apenas no uso de equipamentos de proteção. Pesquisadores da Fiocruz Pernambuco também identificaram problemas dermatológicos, infecções geniturinárias e lesões musculares entre mulheres que trabalham na maré. A exposição ao sol e a postura mantida durante a coleta são outros fatores de risco.

O futuro da atividade depende, portanto, da recuperação ambiental, da proteção à saúde e de políticas de renda para os períodos de baixa produção. Érika Romão, representante voluntária da colônia Z-1 na Ilha de Deus, teme que a pesca ensinada por seu pai deixe de existir para as próximas gerações.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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