WASHINGTON — A reunião entre Xi Jinping e Donald Trump buscou criar limites para a rivalidade entre China e Estados Unidos, sem representar o fim das disputas entre os dois países. O encontro ocorreu após meses de negociações comerciais, em meio às tensões em Taiwan, à guerra no Oriente Médio e à competição tecnológica entre Washington e Pequim.
Para Qu Qiang, vice-decano da Escola de Jornalismo da Universidade Minzu da China, o objetivo mais realista é administrar crises e manter o diálogo direto entre os presidentes. “O aspecto mais importante desta reunião não é que ela tenha produzido um avanço dramático”, afirmou o professor.
A agenda incluiu mudanças nas tarifas de produtos considerados não sensíveis, a abertura de negociações comerciais bilaterais, o acesso ao mercado agrícola e conversas sobre terras raras e minerais críticos. Também houve avanço no diálogo sobre inteligência artificial.
Qu avalia que a relação econômica tende a seguir um modelo de interdependência administrada. China e Estados Unidos continuariam negociando em grande escala, mas tecnologias sensíveis, recursos estratégicos e áreas ligadas à segurança nacional permaneceriam sob disputa.
Taiwan e Oriente Médio
Taiwan foi um dos pontos mais delicados da reunião. Xi pediu que os Estados Unidos se oponham à independência da ilha e tratem o tema com cautela. Washington mantém relações não oficiais com Taiwan e fornece armamentos à ilha, enquanto declara apoiar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan.
Na avaliação de Qu, o risco de confronto militar é maior nessa questão do que em temas comerciais. Ele não espera, porém, uma solução definitiva a partir de uma única reunião. A prioridade seria evitar uma escalada e preservar espaço para novas negociações.
Xi e Trump também conversaram sobre o Oriente Médio, a Ucrânia e a Península Coreana. O governo chinês informou que Xi apoiou esforços para a retomada de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã e para negociações de paz.
A China, segundo Qu, deve atuar por meio do incentivo à contenção, do apoio às negociações e do uso de suas relações diplomáticas e econômicas na região. A guerra em Gaza também foi citada como foco de tensão. Pequim defende um processo político e a implementação da solução de dois Estados.
Cuba, Venezuela e Brasil
A rivalidade entre Washington e Pequim também tem efeitos na América Latina e no Caribe. Em fevereiro, o G77 + China criticou novas medidas dos Estados Unidos relacionadas ao bloqueio contra Cuba. Em junho, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que as sanções estadunidenses colocavam vidas em risco e pediu sua suspensão.
Na Venezuela, a disputa ganhou dimensão geopolítica. Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos capturaram o presidente Nicolás Maduro durante uma operação militar. O governo venezuelano classificou a ação como um sequestro, enquanto especialistas em direito internacional questionaram a base jurídica do uso da força.
Para o Brasil, Qu aponta possíveis efeitos econômicos. China e Estados Unidos são importantes parceiros comerciais, e a disputa pelo mercado agrícola chinês pode afetar produtores brasileiros, especialmente no setor de soja. “A consequência mais importante pode ser econômica, e não geopolítica”, disse.
Apesar dos entendimentos alcançados, o professor não considera que a reunião tenha encerrado a competição estratégica. O encontro seria uma cúpula de estabilização, não de reconciliação: seu resultado dependeria da capacidade de impedir que as diferenças entre as potências se transformem em conflitos incontroláveis.








