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Roberto Schwarz e a literatura como forma de interpretar o Brasil

A obra do crítico, que completa 88 anos, relaciona literatura, desigualdade social e formação histórica brasileira.

Roberto Schwarz e a literatura como forma de interpretar o Brasil
Foto: Folhapress

A obra de Roberto Schwarz propõe uma leitura da literatura brasileira a partir das relações sociais que formaram o país. Ao investigar autores como Machado de Assis, José de Alencar, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, o crítico relaciona as escolhas formais dos escritores a uma realidade marcada pela combinação entre escravismo, clientelismo e ideias liberal-burguesas.

Aos 88 anos, Schwarz relança seu primeiro livro de ensaios, A Sereia e o Desconfiado, publicado originalmente em 1965. O conjunto de sua produção é apresentado como uma construção articulada, em que os argumentos retornam a temas centrais e ganham novos desdobramentos ao longo do tempo.

A formação de uma crítica literária

Os ensaios de Schwarz exigem atenção para acompanhar análises que aproximam literatura, política, história e economia. A prosa busca clareza e precisão, mas preserva raciocínios complexos e uma composição autoconsciente, na qual o crítico também expõe seus pressupostos teóricos e políticos.

Em Cultura e Política, 1964-69, escrito durante o exílio francês e depois reunido em O Pai de Família, Schwarz analisou a produção cultural e os conflitos políticos dos primeiros anos da ditadura, além do aumento da repressão a partir de 1968. O estudo combina comentário político e análise cultural para construir um diagnóstico daquele período.

Na década de 1980, os estudos que formariam Um Mestre na Periferia do Capitalismo, de 1990, consolidaram uma escrita mais fluida, sem abandonar a complexidade dos argumentos. Já Seja como For, de 2019, reuniu ensaios, debates e entrevistas produzidos entre 1976 e 2019.

A chamada matéria brasileira

O núcleo da crítica de Schwarz está nos estudos sobre Machado de Assis. O ensaio As Ideias Fora do Lugar, de 1972, introduziu Ao Vencedor as Batatas e abriu uma discussão prolongada sobre a relação entre ideias importadas e a realidade social brasileira.

Para Schwarz, o problema não estava simplesmente na adoção de modelos estrangeiros. A sensação de inautenticidade das ideias modernas resultava da estrutura social desigual do país, formada pela convivência entre práticas senhoriais e atitudes liberal-burguesas. Essa combinação produziu uma realidade em que proprietários, dependentes e escravizados ocupavam posições profundamente assimétricas.

Essa estrutura é tratada pelo crítico como matéria brasileira: um sistema de relações sociais produzido pela história do país e do mundo, incorporado à linguagem, aos temas, às tradições culturais e às formas literárias. A noção permite analisar como cada escritor transforma artisticamente problemas históricos comuns.

Em Ao Vencedor as Batatas, a análise de Senhora, de José de Alencar, mostra as dificuldades da adaptação do romance europeu à sociedade brasileira. A forma do romance realista sério, criada em outro contexto social, não se ajustava plenamente às relações locais. Para Schwarz, essa inadequação não era um elemento externo à literatura brasileira, mas parte dos próprios materiais com que seus escritores precisavam trabalhar.

A análise de Machado de Assis avança nessa questão. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, estudado em Um Mestre na Periferia do Capitalismo, a volubilidade do narrador organiza a entrada de referências à civilização moderna sob o arbítrio do defunto-autor. A solução formal permite criticar a estrutura de dominação da sociedade brasileira e a ordem capitalista-burguesa.

Um programa para a crítica

Schwarz também sugeriu que a literatura brasileira poderia ser estudada como um sistema de respostas diferentes a uma matéria histórica comum. Nesse horizonte, entram a rispidez de Graciliano Ramos, a reflexão sobre a preguiça em Mário de Andrade, a utopia modernista de Oswald de Andrade e o profetismo de Glauber Rocha, além de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

O programa não se limitaria a identificar temas recorrentes. O objetivo seria compreender como cada obra formaliza a matéria brasileira e qual é o sentido artístico, ideológico e político de sua solução. Entre os trabalhos de Schwarz que se aproximam dessa perspectiva estão os estudos sobre Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulo Lins e Sergio Bianchi.

A mesma abordagem aparece na comparação entre Minha Vida de Menina, de Helena Morley, e Dom Casmurro. Embora sejam obras muito diferentes, ambas são analisadas a partir das posições e dos relacionamentos sociais que estruturam sua prosa.

Atualidade da obra

Os estudos literários passaram a incorporar com mais força questões de gênero, raça e outras pautas políticas. Em discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp em 2022, Schwarz criticou abordagens que, em sua avaliação, reduzem a ficção a documento ou afastam a literatura da história e da realidade exterior à linguagem.

Para o crítico, a obra literária constitui uma forma própria de pensar e investigar o mundo. Retomar seus escritos, portanto, não significaria apenas repetir suas interpretações, mas usar os problemas identificados por ele para investigar questões ainda abertas da crítica e da criação literária brasileira.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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