Em “O Tesoureiro”, livro que será publicado pela Todavia, Xico Sá relembra a atmosfera de junho de 1993, quando a pergunta sobre o paradeiro de Paulo César Farias dominava conversas, redações e programas de televisão. O tesoureiro de Fernando Collor de Mello havia desaparecido depois da decretação de sua prisão, e o então repórter conseguiu a informação de que ele estava em Londres.
A procura por PC Farias era acompanhada como uma novela. O caso, escreve Sá, despertava mais interesse do que o coronel José Inocêncio, personagem de “Renascer”, teledrama exibido pela TV Globo naquele momento. Meses depois, PC foi preso na Tailândia e condenado pelo STF no ano seguinte. Em 1996, acabou encontrado morto ao lado da namorada, Suzana Marcolino. O crime continua sem esclarecimento.
Entre fontes e noites maldormidas
No fragmento, o escritor narra o peso da busca e a cobrança constante sobre o repórter. Em uma das passagens, conta que acordava com a pergunta sobre onde PC Farias estava e recorria a Brigitte Montfort, codinome de uma fonte conhecida na boate Coquetel Drink's, em Maceió.
A fonte tentava tranquilizá-lo durante as ligações feitas de madrugada. O nome usado por ela vinha da personagem Brigitte Montfort, dos livrinhos de bolso ZZ7, publicados pela Editora Monterrey. A coleção teve participação do jornalista José Alberto Gueiros, que assinava como J. F. Krakberg, e do escritor espanhol Lou Carrigan, pseudônimo de Antonio Vera Ramírez. As capas eram ilustradas pelo gaúcho Benício.
Sá também recupera a relação com a mãe, Maria do Socorro, que telefonava de Juazeiro do Norte para a bancada de política da Folha de S.Paulo. Ela sabia que o filho acompanhava o homem mais procurado do Brasil, mas não esperava que o antigo diploma de detetive particular, obtido em curso por correspondência do Instituto Universal Brasileiro, tivesse alguma utilidade.
A investigação antes da internet
A memória do autor passa ainda por Mestre Libânio, conhecido como Charles Bronson, dono da boate Farewell, na região da rua Augusta, em São Paulo. Ali, Sá contava histórias sobre PC Farias enquanto o pianista tocava uma trilha de suspense.
O período era anterior à internet comercial, que chegaria ao país em 1995. Na lembrança do escritor, o trabalho jornalístico dependia de ruas, gabinetes, fontes e documentos obtidos com ajuda de funcionários públicos. A investigação exigia sapatos, bloco de anotações e conversas demoradas.
É nesse ambiente que ele situa a apuração sobre o caixa de campanha de Collor. Segundo a Polícia Federal, PC Farias havia desviado pelo menos US$ 1 bilhão da máquina pública em episódios envolvendo o presidente alagoano. O personagem também era conhecido em Maceió como Paulinho Gasolina e, entre os aliados, como dom Pablo.
O fragmento associa a trajetória de PC à ascensão e à queda de Collor, primeiro presidente eleito por voto popular depois da ditadura e também o primeiro a perder o mandato após um processo de impeachment.
A Fiat Elba aparece como símbolo documentado do dinheiro ligado ao esquema Collor-PC. Antes de a CPI do Congresso revelar o carro, Sá recebeu na Folha uma carta anônima sobre a reforma de um apartamento de Collor no bairro do Farol, na capital alagoana. A partir das informações deixadas pelo remetente, percorreu o caminho até um escritório de decoração no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, e confirmou a ligação entre o pagamento da obra e Paulo César Farias.
O trecho termina com a imagem do Morcego Negro, avião usado por PC Farias, partindo para uma nova etapa da narrativa.







