A desinformação em saúde não se limita à circulação de conteúdos falsos: ela também enfraquece a confiança na ciência, afeta políticas públicas e pode gerar impactos no orçamento, segundo a jornalista e pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital da UFBA.
Em agosto, a Anvisa fez um novo alerta sobre promessas de tratamentos médicos milagrosos sem respaldo científico. Para Nina, a saúde se tornou um campo especialmente vulnerável porque os protocolos mudam à medida que as pesquisas avançam. Essas alterações podem ser interpretadas de forma distorcida por pessoas que já desconfiam da ciência.
A pandemia de covid-19 ampliou esse cenário. O isolamento social aumentou o consumo de informação online, enquanto as vacinas passaram a ser alvo de questionamentos mais intensos no Brasil. Na avaliação da pesquisadora, o movimento antivacina ganhou força quando o tema se tornou uma pauta política.
Nina afirma que a comprovação científica, sozinha, não é suficiente para fazer discursos negacionistas desaparecerem. Para ela, essas narrativas se conectam à visão de mundo de parte da população e continuam sendo reproduzidas em outros assuntos.
O papel da inteligência artificial
A inteligência artificial generativa tornou mais simples produzir imagens e outros conteúdos falsos. A pesquisadora também aponta que sistemas de IA passaram a ser usados por brasileiros para consumir informação, embora não sejam neutros e tomem decisões sobre o que apresentar.
Esse processo, segundo Nina, afasta as pessoas das fontes originais e dificulta a avaliação sobre o que é confiável. A construção de autoridade também ficou mais complexa: vídeos podem usar a imagem ou a voz de médicos famosos para vender fórmulas, medicamentos manipulados ou e-books.
As consequências atingem a coletividade. A queda nas taxas de vacinação pode favorecer a circulação de doenças que já haviam sido erradicadas. Nina também cita o caso da cloroquina, apresentada falsamente como tratamento para a covid-19 durante a pandemia. Segundo ela, o discurso levou a mortes e a gastos públicos com produção, compra e desenvolvimento de um protocolo de tratamento precoce.
Regulação e educação
O Ministério da Saúde e a Anvisa mantêm parcerias com plataformas desde 2023 para tentar reduzir a circulação de conteúdos falsos. Nina considera as empresas essenciais nesse esforço, inclusive porque a publicidade digital pode ser usada para disseminar desinformação com objetivo financeiro.
A pesquisadora, porém, avalia que a autorregulação das big techs é limitada. Para ela, as parcerias precisam ser acompanhadas por medidas regulatórias que estabeleçam obrigações, fiscalização e responsabilização. Ela cita a aprovação do ECA digital e o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet como ações recentes relacionadas ao tema.
Nina também defende medidas educativas e educação midiática para ajudar a população a lidar com tecnologias que mudam rapidamente. Ela afirma que o Brasil ocupa posição de destaque internacional em iniciativas digitais, mas que ainda não é possível garantir capacidade para implementar tudo o que for necessário.
Além de retirar conteúdos nocivos, a sociedade precisa ampliar a oferta de informação de qualidade. A pesquisadora alerta que os modelos de negócio do jornalismo estão ameaçados, enquanto o dinheiro se concentra nas plataformas digitais. Para ela, produzir informação confiável também precisa ser financeiramente viável.
Outro ponto é o acesso desigual. A maior parte da população brasileira usa a internet pelo celular, com planos pré-pagos e limite de dados. Quando o pacote termina, o chamado zero rating permite acesso apenas a serviços de parceiros das operadoras. Assim, uma pessoa pode receber um link no WhatsApp, mas não conseguir abri-lo para consultar o conteúdo completo.
“Não basta querer tirar as informações nocivas do ambiente digital; precisamos ocupá-lo com informação de qualidade”, disse Nina Santos.








