Durante uma consulta, o médico André percebeu que um paciente não havia compreendido os horários indicados na receita. Ao ser convidado a explicar como tomaria os remédios, o homem disse que usaria tudo depois do almoço, embora a prescrição trouxesse orientações diferentes.
Em vez de perguntar diretamente se ele sabia ler, André fechou a porta, usou linguagem simples e buscou entender quais imagens faziam sentido para a rotina do paciente. Desenhou um sol para representar a manhã, um prato para o almoço e uma lua para a noite. O prato foi escolhido porque o homem costumava almoçar no mesmo horário. Com o apoio dos símbolos, ele reorganizou as caixas corretamente.
Símbolos como apoio à receita
André já costumava pedir que os pacientes explicassem, com suas próprias palavras, como seguiriam o tratamento. A técnica ajudava a verificar se a orientação havia sido compreendida, sem transformar a conversa em uma prova. Naquele caso, a resposta mostrou que números e abreviações não estavam claros.
O paciente reconhecia algumas palavras, mas tinha dificuldade para ler frases e horários. Antes de encerrar, o médico também verificou se havia óculos disponíveis, dificuldade de visão ou problemas para abrir as embalagens. O desenho, sozinho, não resolveria essas barreiras.
Para medicamentos com intervalo rígido, os símbolos foram acompanhados de números grandes e círculos representando comprimidos. A receita escrita continuou completa. Nome, dose, via de uso e advertências não poderiam ser retirados, porque o recurso visual funcionava apenas como uma camada de acessibilidade.
Nenhuma cor foi usada como única forma de diferenciar os medicamentos. A equipe considerou que as embalagens podem mudar e que algumas pessoas têm dificuldade para distinguir tons. Também foram evitados desenhos parecidos para remédios com doses diferentes.
Teste antes de ampliar o método
O médico apresentou o caso à equipe sem identificar o paciente. Profissionais de enfermagem, farmácia e alfabetização analisaram os símbolos, criaram um conjunto pequeno e testaram a compreensão com pessoas de idades e escolaridades diferentes. As interpretações conflitantes foram registradas antes da adoção do método na unidade.
A solução passou a ser usada em cartões preenchidos durante a consulta, sempre com explicação verbal e confirmação pelo paciente. Cada cartão trazia o nome completo do medicamento, a quantidade, a via de uso e o símbolo correspondente. O material não substituía o rótulo nem a bula.
A confirmação individual era necessária porque um sol poderia significar “ao acordar” para uma pessoa e “depois do café” para outra. A lua também não indicava um horário exato. Remédios tomados em jejum, com alimento ou em intervalos específicos exigiam informações adicionais.
Adaptação à rotina de cada pessoa
Depois da mudança, pacientes que antes respondiam apenas que haviam entendido passaram a apontar dúvidas específicas. Uma senhora percebeu que tomava caixas semelhantes no mesmo horário. Outro paciente pediu um símbolo diferente porque trabalhava à noite e dormia durante o dia. A equipe passou a anotar a hora real ao lado do desenho e a revisar o cartão quando a prescrição mudava.
O cartão era oferecido como opção a qualquer pessoa, sem presumir dificuldade de leitura pela aparência. A medida também ajudou pacientes cansados, idosos e pessoas com memória comprometida, que não precisavam informar sua escolaridade diante da sala de espera para receber uma explicação mais clara.
A unidade percebeu, porém, que compreender os horários era apenas uma das barreiras. Havia pacientes que não conseguiam retirar os medicamentos, dividiam comprimidos sem orientação ou recebiam receitas de serviços diferentes. Também ocorria confusão entre nome comercial e princípio ativo.
André manteve o primeiro cartão guardado sem nome. Em reuniões mensais, a equipe revisava erros e dúvidas sem atribuir culpa automática ao paciente. O material ganhou versão ampliada para pessoas com baixa visão e espaço para telefone de contato. Traduções e adaptações culturais passaram por nova validação. Quando a resposta permanecia incerta, a orientação era explicar de outra forma, e não culpar quem não havia entendido.







