As reações ao pronunciamento nacional de Javier Milei sobre as Ilhas Malvinas dividiram a oposição argentina entre acusações de oportunismo e manifestações favoráveis à mudança de posição do governo. O discurso ocorreu em um momento de dificuldades eleitorais, descontentamento crescente nas pesquisas e risco de perda de eleitores para uma eventual candidatura da vice-presidente Victoria Villarruel.
A coalizão governista reúne La Libertad Avanza e o partido PRO e buscou, entre outros grupos, o chamado voto militar. Nas primeiras horas após a declaração, o governo conseguiu recolocar as Malvinas no centro da agenda e levou diferentes lideranças a se manifestarem sobre o tema.
A aproximação com Washington
A nova ênfase de Milei sobre as ilhas ocorreu em meio à redefinição das prioridades geopolíticas de Washington, ao endurecimento da postura dos Estados Unidos e às tensões com Londres. O conjunto de acontecimentos alimentou a suspeita de coordenação entre a Casa Branca e a Casa Rosada, possivelmente por meio de contatos entre funcionários de escalões inferiores ou da expectativa sobre declarações de Donald Trump.
Na última segunda-feira (31), durante uma coletiva no Salão Oval, Trump foi questionado se considerava rever a posição dos Estados Unidos sobre as Malvinas. “Eu sempre reviso todas as minhas posições”, respondeu. Na quinta-feira (3), em entrevista à rede britânica GB News, ele foi perguntado se os Estados Unidos manteriam a neutralidade histórica na disputa entre Argentina e Reino Unido. A resposta mencionou a guerra de 1982 e a retomada das ilhas pelos britânicos, mas não confirmou de forma direta a posição americana.
A movimentação é apresentada no texto como uma forma de pressionar o Partido Trabalhista britânico, liderado por Andy Burnham e anteriormente por Keir Starmer. Washington também critica Londres por sua suposta falta de cooperação na guerra contra o Irã e na tentativa de exercer controle sobre o Estreito de Ormuz, a 12 mil quilômetros do território americano.
A possibilidade de uma mudança na posição dos Estados Unidos já havia sido associada ao Departamento de Estado. Em abril deste ano, um vazamento atribuído ao Pentágono indicou que Londres poderia ser pressionada por meio da questão das Malvinas. No final de 2025, o empresário Daniel Hadad disse ao jornalista Jairo Straccia que talvez, no próximo ano ou mais perto das eleições de 2027, viesse um choque relacionado aos esforços americanos para aproximar Argentina e Grã-Bretanha.
Petróleo e base naval
O alcance prático dos anúncios de Milei permanece indefinido. Entre as dúvidas estão o futuro do projeto petrolífero Sea Lion, na bacia norte das Malvinas, e o envolvimento dos Estados Unidos na construção de uma base naval integrada na Terra do Fogo.
O peronista Jorge Taiana, último ministro da Defesa de seu campo político e atual deputado nacional, lembrou que a construção da base naval integrada em Ushuaia começou em 2022. Segundo ele, as obras foram paralisadas pelo governo Milei por três anos. “Não é uma estratégia geopolítica, é oportunismo eleitoral”, declarou.
O economista e ex-ministro Matías Kulfas compartilhou no X uma conferência pública de executivos da petrolífera israelense Navitas, participante do projeto Sea Lion. Na videoconferência de março deste ano, representantes da empresa afirmaram que Milei não considerava a extração de petróleo na região uma questão política e que o governo argentino não havia interferido.
O ex-embaixador dos Estados Unidos Jorge Argüello afirmou que o decreto regulatório e o projeto de lei de Defesa da Soberania Nacional anunciados por Milei não resolvem o problema central. Para ele, a exploração não pode ser interrompida apenas por decisões nacionais, e a resposta deveria ser levada à ONU e relacionada à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Carlos Bianco, ministro do Governo da província de Buenos Aires, disse que Milei levou 267 dias para cumprir a Lei 26659, que proíbe a participação, o financiamento ou a prestação de serviços em atividades não autorizadas de exploração de hidrocarbonetos na plataforma continental. Bianco afirmou que a província se opôs ao projeto da Navitas desde o primeiro dia. A empresa pretende produzir 50 mil barris por dia.
Disputa política
O deputado do Parlasur Gabriel Fuks, da UxP, afirmou que a Navitas já anunciou a continuidade do projeto e considerou improvável a aplicação de sanções econômicas dos Estados Unidos ou de outro país contra a empresa israelense. Ele também relacionou a base de Ushuaia à tentativa de justificar uma cooperação cada vez maior com Washington em assuntos marítimos, militares e de segurança.
Fuks avaliou que a postura pró-Malvinas de Milei pode perder espaço rapidamente. “Muito provavelmente, em sete dias a conversa voltará às dívidas familiares”, disse, associando o discurso à tentativa de desviar o debate de outros assuntos.
Ao mesmo tempo, o parlamentar pediu que a oposição não trate a questão de forma simplista. Para ele, a disputa envolve um sentimento coletivo e não deve ser reduzida à estratégia do governo. Fuks afirmou que mudanças na situação internacional podem abrir oportunidades para a reivindicação argentina, embora também tenha descrito as ações de Trump como uma manobra de pressão contra a Grã-Bretanha e o uso das Malvinas por Milei como uma forma de desviar a atenção.








