MARYLAND — A destruição de um satélite em órbita pode desencadear uma sequência de colisões e deixar faixas orbitais inutilizadas por décadas ou até um século. Esse é o principal risco apontado pelo professor Daniel Barreiros, do Instituto de Economia da UFRJ, após os Estados Unidos confirmarem que mantêm armas de controle espacial ao redor da Terra.
A possibilidade é conhecida como síndrome de Kessler. O cenário teórico foi desenvolvido por Donald Kessler, consultor da Nasa, nos anos 1970. Nele, um satélite destruído gera detritos que atingem outros equipamentos, formando novos campos de lixo espacial. Como esses fragmentos não são, ou apenas poucos são, atraídos pela gravidade terrestre, permanecem em órbita.
Barreiros afirmou que esse processo poderia afetar países que dependem de satélites para comunicação, monitoramento meteorológico, agricultura e outras atividades. Para ele, os equipamentos de países periféricos têm menos mobilidade e dificuldade para mudar de órbita.
O que os Estados Unidos confirmaram
A declaração foi feita na segunda-feira (14) por Troy Meink, secretário da Força Aérea dos EUA, durante a Conferência Aérea, Espacial e Cibernética, em Maryland. Ele disse que o país possui, em órbita, armas de controle espacial capazes de defender a força conjunta contra adversários hostis.
A Força Espacial dos EUA confirmou posteriormente o teor da fala. Meink não informou quais sistemas estão em órbita, quantos são nem desde quando foram lançados. Uma autoridade americana, sob condição de anonimato, afirmou que essas armas poderiam permitir a destruição de um satélite inimigo usado para mirar tropas americanas ou um satélite dos EUA.
A expressão armas de controle espacial também pode se referir a capacidades instrumentais ou tecnológicas destinadas a proteger ativos no espaço. Elas podem ser meios cinéticos, como mísseis, projéteis e drones, ou não cinéticos, baseados em campos de energia, ondas eletromagnéticas e computadores.
Reação de China e Rússia
A confirmação provocou manifestações de China e Rússia, consideradas pela Força Espacial americana potenciais ameaças aos interesses dos EUA no espaço. Na terça-feira (15), um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês pediu que os Estados Unidos interrompessem a acumulação militar no espaço e afirmou que a China se opõe à transformação do local em uma zona de guerra.
O porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, disse que a Rússia considera que o espaço deve permanecer livre de armas e defendeu uma consolidação internacional em favor da desmilitarização completa.
Disputa entre potências
Estados Unidos, China, Rússia e Índia desenvolveram formas de realizar operações militares no espaço e têm capacidades para atacar satélites de países rivais. A Força Espacial americana foi criada em 2019, durante o governo de Donald Trump, para proteger ativos dos EUA, incluindo centenas de satélites usados em comunicação e vigilância.
O plano americano prevê um pouso na Lua até 2028. A China pretende levar humanos ao satélite natural em 2030, enquanto a Índia foi o primeiro país a pousar uma aeronave perto do polo sul lunar em 2023. China e Rússia também concordaram em construir uma usina nuclear na Lua até 2035 para abastecer a futura Estação Internacional de Pesquisa Lunar, liderada pelos dois países.
A disputa espacial começou durante a Guerra Fria, com a competição entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. O lançamento do Sputnik, em 1957, impulsionou a exploração de formas de destruir e armar equipamentos em órbita. Em 1967, cerca de 120 países assinaram o Tratado do Espaço Sideral, que proíbe armas de destruição em massa em órbita, mas não impede armas convencionais no espaço nem ataques feitos a partir da Terra contra alvos espaciais.
Além das armas já mantidas em órbita, o Departamento de Defesa americano desenvolve o Golden Dome, sistema de defesa antimísseis inspirado no Domo de Ferro de Israel. O projeto prevê camadas de interceptação e uma estrutura espacial de alerta e rastreamento de mísseis. O custo estimado de desenvolvimento, implantação e operação ao longo dos próximos 20 anos é de US$ 1,2 trilhão, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso.
Para Barreiros, a colocação de armas em órbita pode estimular outros países a fazer o mesmo. A preocupação, porém, não se limita à corrida armamentista: a destruição de satélites pode produzir detritos capazes de comprometer o uso de regiões inteiras do espaço por longos períodos.








