A fuligem emitida por carros, usinas a carvão e fábricas pode responder por até um terço da perda de massa das geleiras do Himalaia. O carbono negro escurece a neve, faz a superfície absorver mais energia solar e acelera o derretimento do gelo.
Uma modelagem da Academia Chinesa de Ciências calculou que essa poluição foi responsável por até um terço da perda glacial no Himalaia entre 2007 e 2016. O resultado considera o carbono negro produzido pela queima de combustíveis no Sul da Ásia.
A preocupação aumentou após o desastre que atingiu vales do Nepal no fim de agosto e deixou milhares de desaparecidos. O derretimento mais rápido contribui para tornar as geleiras instáveis e pode elevar o risco de rompimento de lagos formados pelo gelo.
Por que a neve escura derrete mais rápido
A neve limpa em áreas de grande altitude consegue refletir até 90% da luz solar. Quando fuligem e poeira se acumulam, essa capacidade diminui. A superfície passa a reter mais calor, em vez de devolvê-lo ao espaço.
A poluição também interfere na formação de nuvens e reduz as nevascas regionais. Com menos neve nova, as geleiras perdem parte da reposição necessária para se manter. O calor ainda pode derreter camadas superficiais e expor poeira e detritos antigos presos no gelo.
“Isso está tendo um impacto enorme nessas geleiras, especialmente à medida que elas ficam cada vez mais finas”, disse Marco Tedesco, professor de geofísica do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia.
Um estudo baseado em seis anos de dados de satélite identificou o transporte de fuligem e poeira mineral de áreas industriais do Paquistão até geleiras de alta altitude. Abira Sengupta, pesquisadora da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, afirmou que a perda pode aumentar se a poluição não for controlada e associou o cenário ao risco de novas enchentes no Nepal.
Instabilidade e limites da adaptação
De acordo com a ONU, as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos. Pesquisas indicam que a região do Hindu Kush-Himalaia pode perder até metade de sua cobertura glacial até o fim do século, mesmo com o aquecimento limitado a 2°C.
Os rompimentos de lagos glaciais aumentaram cinco vezes por década desde os anos 1950 na região, segundo Dipesh Chapagain, do Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas. O Himalaia tem mais de 63,7 mil geleiras e não conta com sistemas de alerta precoce suficientes, conforme informações da DW.
Levan Tielidze, da Universidade Monash, na Austrália, defende uma combinação de satélites, detecção sísmica e alertas automatizados. Em 2025, o monitoramento permitiu a evacuação de moradores antes do colapso de uma geleira nos Alpes suíços, que destruiu a vila de Blatten e matou uma pessoa.
A redução da fuligem pode produzir efeitos rápidos porque o carbono negro permanece no ar por dias ou semanas, ao contrário do CO2, que pode durar séculos na atmosfera. Um estudo de 2023 do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical mostrou que a queda temporária da poluição durante os lockdowns da Covid-19 em 2020 clareou a neve e reduziu o derretimento no Himalaia em até 40%.
A ONU alertou nesta quarta-feira (02) que as temperaturas globais devem ultrapassar 1,5°C nos próximos anos, aumentando a pressão sobre geleiras e cidades costeiras de baixa altitude.







